O dia em que Inês de Castro morreu
No início do século XIV Portugal contava com cerca de 1.000.000 habitantes. Em 1355 esse número era significativamente inferior pois a Peste Negra, que se calcula ter entrado em Portugal em 1348, tinha dizimado um terço da população portuguesa, ficando os campos abandonados e o reino muito despovoado. Muitos foram os que, para fugir à miséria, abandonaram as terras procurando na cidade ocupação no comércio ou nos ofícios. Mas nem todos o conseguiam, pois ao excesso de mão-de-obra somava-se a falta de experiência e conhecimentos destas gentes do campo para se adaptarem às novas actividades. As consequências não tardaram a sentir-se: pelas cidades abundava a mendicidade e a insegurança.
A doença fazia parte do quotidiano. O excesso de pessoas nas cidades, a contaminação dos poços, a falta de organização sanitária, as ruas repletas de porcos e ratos, a invasão das pulgas, tudo contribuía para o alastrar das epidemias. Entre as doenças vulgares para as quais não havia cura contam-se o sarampo, a tuberculose, a disenteria, a difteria, a varíola e a escarlatina. No entanto, a pior de todas as epidemias foi mesmo a peste negra.
Enquanto a cidade crescia desordenadamente, a burguesia afirmava-se e ganhava terreno. Ao contrário, a Nobreza assistia à queda lenta do seu mundo e dos seus valores. Quanto ao clero, este aumentava significativamente a sua riqueza graças às heranças deixadas pelas vítimas da Peste Negra.
A maior parte da população era muito pobre. A alimentação consistia em couves, feijões, favas, ervilhas, lentilhas, grão de bico, pão, castanhas ou bolotas, cereais - milho, centeio, cevada, aveia - e vinho. Os pobres raramente comiam carne, apenas quando lhes era oferecida ou quando o rei a mandava assar em praça pública em ocasiões especiais. Já a nobreza alimentava-se abastadamente: carne, fruta e peixe faziam parte do seu quotidiano.
Ao contrário dos pobres, os nobres viajavam a maior parte do tempo. Os pobres trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol. As condições de trabalho eram atrozes. Como passavam a maior parte do tempo ao ar livre, a residência não passava de um dormitório ou um refúgio contra o frio do Inverno. Na verdade, as habitações consistiam num único grande recinto de terra batida e sem divisões internas. Na cama dormiam vários elementos da família o que facilitava a propagação de doenças.
Também no vestuário se distinguiam as classes. Havia então legislação específica que determinava quem podia usar esta ou aquela peça de vestuário ou mesmo quando e como o devia fazer. Estas regras permitiam não só a distinção entre os vários grupos sociais como também protegia as manufacturas nacionais, tentando diminuir o uso de roupas ou luxos excessivos, provenientes do estrangeiro e que eram tão prejudiciais para a nossa economia.
Assim, o povo vestia-se com roupas feitas de linho ou lã. A maioria usava uma túnica até ao joelho a que se dava o nome de saio. Alguns usavam até roupa feita de pele de cabra ou carneiro. As classes mais abastadas vestiam seda e enfeitavam as suas roupas com peles valiosas.
Nesta época não havia relógios e o tempo corria devagar. As noites eram longas e escuras, mas se as pessoas estivessem entretidas, pareciam subitamente muito mais curtas e iluminadas. Então, muitos passatempos tinham o duplo fim de servirem como entretenimento e como forma de fornecer alimentos ou desenvolver a perícia militar. Muitos dos passatempos tinham deste modo um lado prático, decorrente das necessidades de sobrevivência e defesa.
Uma das grandes ocupações era a caça, um passatempo com várias funções e fins práticos.
Tudo o que acontecia no dia-a-dia era marcado por rituais e formalidades. Uma viagem ou uma visita não se faziam sem bênçãos, rezas e preparações. Cada profissão tinha sua roupa própria; cada súbdito de uma ordem religiosa ou nobre tinha seus símbolos e insígnias. Os leprosos usavam guizos. Os nobres nunca saíam sem seus séquitos e armamentos, e a chegada de um mercador a uma aldeia era sempre assinalada pelas novidades e surpresas que trazia.
O ano de 1355 começou frio e as gentes encolhiam-se nas ruas, apressando o passo e, os que podiam, reforçando os agasalhos. Quando o príncipe D. Pedro partiu com o seu séquito em caçada estava longe de imaginar que poucos dias depois uma conjura se preparara para matar a sua amada. Foi ao cair da noite fria de 7 de Janeiro que Inês de Castro, com pouco mais de 30 anos, no meio de prantos e de súplicas morreu às mãos dos conselheiros de D. João IV.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
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